HIKIKOMORI: JOVENS RECLUSOS
Você não tomou banho hoje. Nem ontem. Desde cedo, você já falou com mais de “trocentas” pessoas, nenhuma ao vivo. Só pelo computador. Você já visitou mais de um “zilhão” de sites desde a meia noite, e 5% deles são pornôs. Você tem um avatar no Second Life. Você é um ás no teclado e nas manhas da informática, parece um mágico com seu baralho.
Se você disse “sim” a apenas algumas das assertivas acima, cuidado! Você pode ser um hikikomori, a geração mangá que vive de costas para a vida. Li na VEJA da semana passada e confesso que nunca soube que era um fenômeno japonês, com um milhão de “adeptos”. Interessei-me pelo assunto porque no meu pequeno mundo, ouvi falar de três jovens que vivem assim. São parentes de parentes e, para confirmar seu estilo de vida, nunca os encontrei. Sei que vivem num mundo de som extremamente alto, viciados em games, são quase “hackers”, e não suportam os pais.
O fenômeno cresceu no Japão devido a características culturais, em que o emprego e o estudo são valores supremos. Creio que o problema pode existir no Brasil também pela forma viciada na oferta de oportunidades. Nossa “geração mangá” pode apenas expressar um protesto mudo pela dificuldade na obtenção do primeiro emprego.
A ironia nisso tudo é que o que deveria ser um protesto individual começa a pegar contornos de movimento social sem líderes ou estatuto, com pelo menos um milhão de seguidores. Isso lembra de longe o tema do excelente livro de J. G. Ballard, Terroristas do Milênio, que trata exatamente da revolução silenciosa – e às vezes nem tão silenciosa - da classe média inglesa, capaz de abalar o equilíbrio das forças econômicas, adotando apenas a indiferença.
Um amigo me diz que isso não pega no Brasil. Se houvesse um milhão de hikikomoris por aqui, o Casseta & Planeta criaria um quadro com situações hilárias. As Organizações Tabajara teriam a linha mangá. Um empreendedor criaria um adesivo “Não fale comigo. Sou mangá!” O Presidente lançaria a Bolsa Mangá com o slogan: “Se você não acha emprego, fique em casa”.
Humor à parte, o problema é sério. Há organizações que estudam o assunto e tentam minimizá-lo. Se a sua família convive com este problema, tente visitar o site www.wonderfullarts.blogspot.com. Se você é hikikomori, aceite ajuda, simplesmente porque a vida não é justa e há alguém precisando de você.