O DRIBLE DA MARTA
Tenho elaborado planos de negócios desde há longo tempo, quando ainda não se sentia sua necessidade na análise de viabilidade de um empreendimento. Hoje a palavra é quase um modismo. Praticamente não há negócios sem um plano prévio.
Pergunto-me sempre, e repito a pergunta aos meus clientes, se um Plano de Negócios substitui a intuição legítima de um empreendedor. Intuição aqui é o “feeling” de que aquele negócio que o empreendedor nato tem em mente vai dar certo. Não! Não substitui.
Intuição é coisa mágica, que geralmente ocorre com quem sabe muito sobre certo assunto. Se eu tentar dar aquele drible da Marta sem nunca ter jogado bola, certamente não vou conseguir. É coisa para quem sabe. Mas se eu ou outro atleta simplesmente medíocre filmá-lo, repeti-lo até a exaustão, um dia aquele drible vai sair. Foi o que a Marta deve ter feito. Ela “filmou” a jogada que só existia em sua mente e tentou aplicá-la nos treinos e então saiu aquela perfeição. Plano de negócio é isso, ainda que não tenha sido escrita uma linha sequer.
O MUNDO REAL
No mundo real o melhor é um pouco de intuição e muito planejamento antes de iniciar um negócio ou ampliá-lo se ele já estiver em andamento.
Há alguns anos, quando um empreendedor ia ao banco, não escapava das perguntas básicas: o que você vende? Pra quem? Em que região? Quanto fatura? O que você vai fazer com o dinheiro? E coisas do tipo. Quem já passou por isso sabe que a lista é grande.
Atualmente a lista é maior e mais sofisticada. Falamos de sumário executivo, de configurações contábeis e jurídicas, de composto de marketing, de ameaças e oportunidades, pontos fortes e fracos, de matriz Swat. Enfim, é um desnudamento do negócio: revelar todas as intimidades de seu empreendimento para compreendê-lo e avaliá-lo.
Quando faço palestras sobre Plano de Negócios, gosto de iniciar com a pergunta: os senhores querem aprender a fazer planos de negócios? “Siiim” – responde a platéia. “Não” – corrijo imediatamente. “Espero apenas que os senhores aprendam a lê-lo”
Realmente, um Plano de Negócios bem feito é uma radiografia do empreendimento que você toca ou imagina iniciar. Melhor que isso: é uma tomografia que revela tudo. Se soubermos interpretá-lo, teremos o diagnóstico correto. Poderemos dizer: seu empreendimento vai dar certo. Vai dar certo em tantos meses. Com ares de cartomante, podemos dizer: vejo uma fortuna no seu caminho. Há também o “dark side”, o lado negro da coisa. Alguém, ao interpretar a tomografia do seu empreendimento, poderá dizer: “Huum! Esqueça isso” ou mais delicadamente: “Estamos sem verbas para empreendimentos desse tipo. É fora do nosso foco.”
Minha esperança de palestrante é que o próprio empreendedor seja capaz de interpretar a “tomografia” e dizer ele mesmo a si próprio todas aquelas frases do parágrafo anterior, sejam elas otimistas ou devastadoras para o empreendimento. Melhor do saber fazer um Plano de Negócio é saber interpretá-lo.
PLANOS FICTÍCIOS
A guerra fiscal entre municípios para atrair empresas para seus territórios levou as Prefeituras a oferecer vantagens aos empreendedores. Algumas pagam aluguéis, dão terrenos, isenções parciais ou totais de impostos municipais, pagam despesas de mudanças, etc. Para isso, precisam de algum documento que formalize a intenção do empreendedor para justificar as despesas junto ao Tribunal de Contas. A solução? Plano de Negócios.
O empreendedor deve apresentar um Plano de Negócios para o órgão da Prefeitura que avaliará se vale a pena investir esses montantes na empresa interessada em mudar-se para o município. Às vezes o investimento municipal supera o do investidor e justifica-se a preocupação.
Nunca duvide da esperteza do empreendedor. Eles perceberam que as perguntas que os órgãos municipais fazem não são pertinentes. As Prefeituras raramente têm pessoal apto a ler e interpretar Planos de Negócios. Basta apresentar uma carta de intenções, prometendo tantos empregos, tanto de faturamento, coisas do tipo. São os Planos de negócios fictícios.
Algumas Prefeituras até que tentam melhorar isso e até já fui indicado para fazer Planos de Negócios para esses empreendedores. Quando começo a fazer as perguntas mais elementares percebo a falta de correlação entre as respostas. É investimento demais para o ramo, é promessa de empregos demais, a ascensão esperada é rápida demais. Sei que aquele cliente quer um plano fictício, alguma coisa que apenas impressione um leigo e que ele, o empreendedor, jamais seguirá. Embora o empreendedor esperto possa ser tentado a elaborar um Plano Fictício de Negócio e alguma Prefeitura possa aceitá-lo fica um conselho: jamais compareça com um plano desses a uma empresa de Capital de Risco ou a uma grande corporação que opere programas de responsabilidade social.
Usamos acima a analogia com “tomografia” para bem explicar um Plano de Negócios. Ao invés de elaborar um plano fictício, seria melhor tomar um chá “abre caminho”, receitado por um Pai de Santo generoso. Não façam isso: trocar uma tomografia por um passe espiritual.
Se você, empreendedor, não acredita em Plano de Negócios mas precisa de um, escreva uma carta de intenção e a releia até encontrar “furos” no que estiver escrito, mas não faça planos fictícios. A não ser que você seja apenas um apostador, jamais um empreendedor.